A TERRA NOS SEJA LEVE
Dialogavam sobre a formação e a filosofia da seita “A TERRA NOS SEJA LEVE”. A conversa evoluiu e finalizou com a doutrina da seita “JOÃO DAVIDA LIXO”.
Segundo Marina, a seita “A TERRA NOS SEJA LEVE” nunca existiu. Tratava-se de uma estória pouco lida, criada por alguém. – Ouvi dizer que prega o suicídio. – diz Ataíde. – Sim, é verdade. – Então, nem pensar ser adepto. – … – Também ouvi dizer que é uma história proibida em diversos países. – Antes fosse, você deve saber que tudo que é proibido é cobiçado. No entanto, o que fizeram para que a ‘estorinha’ não alcançasse tal status? Depreciaram-na e, hoje, nem pai a coitada tem. – Como assim? – Como direi… A estória é apresentada como uma obra popular. Órfã, portanto. – Uma pena? – Não sei qual seria a relevância disso. Muitos dizem que a história de Jesus Cristo é um conto popular. Por se tratar supostamente de ser um conto, pode-se dizer que é uma história cabeluda? – ... – Mas, se é que a seita em questão existiu, foi fundada pelo jovem Quinzona, dono de uma vida marcada por avalanches. Sua biografia teria sido escrita por alguém. Dizia que, aos doze anos de idade, presenciara costumaz absurdo. A sua família fora expulsa das terras que eram de propriedade dela. Desalojada e sem a quem recorrer, mudou-se para a cidade de Baliza, onde ocupou um terreno abandonado. Trabalhadores que eram, organizaram um comércio e, quinze anos depois, eram fortes comerciantes. No entanto, o bairro valorizou ao longo daqueles anos. Então, os “donos” do terreno que eles ocupavam, surgiram e, mais uma vez, foram desalojados. Quinzona, magoado, torna-se andarilho e começa a pregar. E logo, por motivos óbvios, não demora para que um batalhão composto por sessenta adeptos vivesse em volta dele. E o escutavam. A relação do dízimo, coisa pouco explicada, era entre a terra e o universo. Então, como determinava a filosofia da nova seita, na primeira reunião que acontecera seis adeptos, em nome do dízimo, suicidaram. Foram sepultados convencionalmente e, nos jazigos, constavam a rogativa: “A terra nos seja leve”. – Suicidaram? – Sim. E nos jazigos constavam a rogativa: “A terra nos seja leve”. – … Não estavam mortos, Marina? – Estavam sim. – O peso da terra faria alguma diferença? – Ilustradamente falando, a terra fora leve para com o Quinzona? – Não. – Teria sido leve para com o bando de padecentes que se juntou a ele? – Também não. – No entanto, nos jazigos constava a generosa súplica: “A terra nos seja leve”. Pedia-se para que a vida fosse leve para com os viventes. – Hum… – Entendeu? – Entendi. – Quinzona também se suicidou. Antes do ato heroico, havia pedido aos adeptos que dessem continuidade aos trabalhos da seita. Pois, acreditava que, com o número crescente de suicídios, as autoridades prestariam atenção naquilo… – Seria verdade, Marina? – … Mas as autoridades não tiveram a oportunidade de prestar atenção naquilo, porque o número de suicídios nunca chegara a ser expressivo e assim a seita acabou. – Poxa! – Lamentável, sim. Mudez vencida, Ataíde diz que apreciava a filosofia da seita “João Davida Lixo”. – Já ouvi falar. – “Que sejas tu ‘Deus’ louvado e que sobre ti, ‘Demônio’, recaiam todas as desgraças do mundo. Que tu habite onde a desgraça habite…” – recita Ataíde. – Medonho isso. – resmunga Marina. – Deus e/ou o Demônio, somos nós mesmos. Assim a mencionada seita acredita. Marina reflete e diz: – Serei solidária: “Que sejas tu ‘Deus’ louvado e que sobre ti, ‘Demônio,’ recaiam, todas as desgraças do mundo.” – Amém! – replica Ataíde.
ILUSÃO OU FATO?