A FOTO

       Os psiquiatras, Vano e Fribia, aguardavam na expectativa de que a portadora de esquizofrenia, Dilli, de nove anos de idade, se manifestasse sobre a foto da jovem que tinha em mãos. Dizendo tratar-se de uma velha. O Dr. Vano, fitando sua colega de profissão, retirou das mãos da garota a foto, afagou-lhe os cabelos e deixaram a enfermaria. Minutos depois, se encontraram num prédio anexo, precisamente no quarto 505, ocupado por Resuli Tanhados, a jovem da foto, de 17 anos de idade. 
       – Tão bela e jovial quanto na foto. – disse a Dra. Fribia, fitando-a. 
       – E por que Dilli insiste em dizer que ela é uma velha? – questionou o Dr. Vano. 
       A enfermeira que cuidava da paciente, fazendo-se presente, cumprimentou-a, e ambos foram conversar, sentando-se a uma discreta mesa da cantina. 
       – Como Dilli teve acesso à foto? – indagou a Dra. Fribia, após degustar um gole de café. 
       – Resuli me ofertou. Respondendo à pergunta, devo dizer-lhe que Dilli costuma remexer nos bolsos do meu jaleco. Lançando mão da foto, observou… 
       – Que era ela uma velha. 
       – Sim. 
       – Resuli já foi submetida a todos os exames possíveis e disponíveis. Os resultados sempre são normais. E assim, você, estranhando a si mesmo, tecla na suspeita de que ela possa sofrer de encosto espiritual. 
       – Tecla que só você é ciente. – disse o Dr. Vano. 
       – Fique sossegado. – garantiu. 
       O Dr. Vano aproveitou para dizer que Resuli pertencia a uma família rica, a diária do quarto que ocupava tinha um custo elevado. 
       – E o seu nome corre mundo afora como o melhor da psiquiatria. 
       – E não da umbanda ou algo do tipo. – replicou o doutor. 
       – E o que deseja de mim? – quis saber a Dra. Fribia. 
       – Ajuda. Dilli, com a sua mente distante vê na foto uma senhora, algo que a fotografia nada deixa transparecer. 
       A Dra. Fribia, após tragar o café, pensativa, perguntou como os pais de Resuli acompanhavam o tratamento da filha. 
       – De perto. Torcem pela recuperação da profunda depressão em que ela se encontra. 
       – … Está lembrado de que lhe falei sobre a disponibilidade do meu tempo? 
       – Falou sim. 
       À noite, a Dra. Fribia telefonou para ele se prontificando em assessorá-lo. 
       – Qual será a tática? – quis saber o Dr. Vano. 
       – Alan Kardec. Apresente-me aos pais da jovem Resuli, como sua assessora médica, estudiosa, em genética familiar. Pretendo obter fotos femininas de parentes. Tão logo sejam obtidas, você mostrará a Dilli. 
       Uma semana depois, havia três senhoras em fotos diante de Dilli. 
       – A velha. – disse Dilli apontando para uma das fotos. 
       Os doutores Vano e Fribia se entreolharam. 
       – A velha. – voltou a dizer Dilli apontando para a mesma foto. 
       – É a senhora Neirete. Falecida há cinco anos em um acidente automobilístico. – explicou a Dra. Fribia. 
       Dr. Vano e ela recolheram as fotos, deixaram a enfermaria e foram se acomodar junto a uma discreta mesa da cantina daquele pavilhão. 
       – E agora? – perguntou o Dr. Vano, mexendo o café que havia levado para a mesa. 
       – Prosseguiremos com a experiência. Marque uma reunião com os pais de Resuli. Não se esqueça de que a presença da avó é indispensável. 
       – Por quê? 
       – Você verá… Existem coisas que, de fato, beiram à tolice. Contudo, existem outras cujos acontecimentos devem ser observados com cuidado. O meu conhecimento médico não conseguiu destruir isso de mim. 
       O Dr. Vano, ao iniciar a reunião, na residência dos Tanhados, solicitou aos mencionados participantes que tivessem um pouco de compreensão com o que ouviram. Assim sendo, ardil, omitiu a palavra, supostamente, e disse que o mal que Resuli sofria, respectivamente, filha e neta, provinha da falecida senhora Neirete. 
       – A minha finada irmã! – afirmou a avó de Resuli, batendo no braço da cadeira. 
       A senhora Risoli, mãe de Resuli, pedindo melhores esclarecimentos ao Dr. Vano. Olhando para a colega, disse que Resuli sofria interferência daquela senhora. 
       – Como assim? Pois, até onde sei, fora ela uma pessoa saudável. – frisou a senhora Risoli. 
       – Saudável sim! Mas, espiritualmente, perturbada. Ora, Risoli, você sabe que a minha irmã tinha algo de ruim dentro de si. – replicou a avó de Resuli. 
       – O senhor nos diz… – o pai de Resuli. 
       – Que todos os exames possíveis dentro da área da psiquiatria aos quais Resuli fora submetida, todos tiveram resultados normais. 
       – E o que o senhor sugere? – quis saber a Sra. Risoli. 
       O Dr. Vano, mais uma, vez recorreu à colega, dizendo que todas as fotos, bem como todos os pertences da senhora Neirete deveriam ser queimados. 
       – Então que assim seja feito. – sentenciou a avó de Resuli. 
       Dias depois Resuli, praticamente restabelecida da profunda depressão, brincava com o seu cãozinho no jardim da residência.


ILUSÃO OU FATO?