ESCOLA DE AUTOR - "O PRESENTE DE JAK"

       O renomado escritor, orientador do curso de formação de autores, disse para os alunos aptos a participarem daquela fase que o título do texto que seria construído teria como nome “O PRESENTE DE JAK”. Quem desejasse desenvolvê-lo deveria erguer a mão. Meditativo… silêncio vencido... Júlia ergueu a mão. O orientador indagou em que sentido usaria o adjetivo presente no título. 
       – No sentido de posterior ao passado e anterior ao futuro. – responde ela. 
       – Preparada? 
       – Estou. 
       – Esteja à vontade. – deseja o orientador. 
       INICIA: 
       – ... Do alto do elevado para onde havia escapado depois de ter se livrado da inesperada tragédia, Jak, 38 anos, observa o automóvel arder em chamas na estreita e deserta rodovia. Seguia para o norte. Porém, com o trágico resultado da fadiga do motor, o norte poderia ser qualquer um dos pontos cardeais, exceto o ponto de onde viera. Desolado, consulta o relógio. Eram 16:45 h. À luz do dia, demostrava cansaço. Sem opção de destino, decide que permaneceria por ali, naquele cerrado, raciocinando a fim de descobrir onde estaria o seu norte... Um novo dia surge numa cama improvisada. Jak dormia sem perceber que estava sendo observado por um jovem cavaleiro. Ao desmontar, o cavalo relincha e Jak desperta. Numa espécie de apresentação, o jovem cavaleiro diz que o dia ainda não havia nascido quando o falecido automóvel fora guinchado. Um dos policiais que participara da operação olhou por vários minutos para o topo do morro. Pressentiu que precisava subir. No entanto, o rádio da viatura os chamou para uma nova ocorrência. Jak, após ouvi-lo, indaga se venderia o cavalo. Replica que não estava à venda. Aliás, caso o vendesse, não seria uma transação lícita, isso porque o animal empacava, caso não fosse ele que estivesse na montaria. Ainda dando atenção ao desconhecido, o cavaleiro diz que era caçador e estava recolhendo armadilhas. Sugerir um lugar para passar o dia? A feira. As terras em que pisavam eram as do Leste. Jak se ergue, medita sobre as informações obtidas, trocam entre si mais algumas palavras e passam a caminhar. Minutos depois, se despedem sob orientação do jovem que diz para seguir em frente pois, assim, chegaria até a feira. 
       – Com fôlego para continuar, senhorita autora? – o orientador. 
       – Sim. 
       – Prossiga 
       – Embora ainda fosse cedo, já havia significativo número de pessoas na feira. Jak, caminhando no meio delas, olha canto e outro. Observa o céu límpido e se senta num banco pertencente a uma barraca onde era servido o café da manhã. O dia seria longo, reconhece. Saciado, volta a caminhar meditando onde encontraria um norte. Acomoda-se num banco da praça, depois vai se refugiar num bar onde havia jogo de bilhar. O tempo ali passa na velocidade da luz. Fora divertido. Um dos parceiros do jogo não apostado seguiria para uma cidade vizinha mais desenvolvida. 
       – Chegará lá, senhorita? – indaga o orientador. 
       – Chegarei sim. São esses os passos. 
       – Continue. 
       – Junto à camioneta, Jak se conscientiza como seria a carona por ele solicitada. Iria na carroceria do pequeno carro e na cabine iria o parceiro de bilhar, proprietário do veículo, e o cão. Em plena rodovia foram duas horas de frio intenso. Às 20 horas, pisa no chão de uma praça. Despede-se do companheiro de jogo e passa a percorrê-la. Num dos portos que havia ancorado, sempre pensativo, olha para uma jovem acompanhada por um pequeno cão. Trocam olhares. Mas fora tudo. Atravessa a rua e vai se acomodar à mesa de uma padaria. Em razão do horário, só havia ele e a atendente ocupada com alguma coisa. De repente um casal de garotos adentra o recinto. Nostálgico, deposita as vistas sobre o casal de garotos, recordando: “O que faremos depois de estudarmos? Jogaremos baralho? O bolo também estava bom.” Os garotos, depois de terem sido atendidos, se retiram. Jak se dirige à porta por onde haviam passado e fica observando-os até se distanciarem. “Como seria o quarto deles. Arrumado e perfumado?” Questiona. De volta à mesa, fora na companhia de uma bandeja contendo café, pão e bolo. Degustando o bolo, vê em pensamentos uma mulher no interior de uma casa. Dissera algo no ouvido dele e ambos reagem felizes. Meditando onde encontraria o seu norte, lança mão no porta-revistas não distante da mesa. Apossando-se de uma das revistas e folheando-a, prende as vistas em algo que assim dizia: “Não existia nem passado e nem futuro. Pois o tempo não retrocedia e nem avançava. Embora contabilizado e cronometrado, repousava num eterno presente. Ilusoriamente, o dia de ontem seria passado; o dia de amanhã seria futuro. Ilusoriamente, pois, lua após lua, o tempo seria o mesmo desde o seu nascimento. Impossível morar no passado ou residir no futuro. Portanto, não existia outro tempo que não fosse o presente.” Ao ler sobre essa possível realidade fica meditando. Levanta-se, quita a despesa e se retira. Vagando, dobra a primeira ou a segunda esquina, continua a vagar. Uma vez servindo-se do breu intenso, decide que passaria a noite ali. 
       – ... Finalizou, senhorita? 
       – Sim. Desconheço o que Jak teria praticado ou do que teria sido vítima. Todavia era jovem. Havia tempo para reconstruir ou construir o seu norte. 
       – Então esse seria o presente do Jak. 
       – Sim. 
       Argumenta o orientador: 
       – Como também poderia ser doce ou bem mais amargo. 
       – Naturalmente. Quando o senhor anunciou o título guia do texto que construiríamos, lembrei-me desse pensamento: “Maestria do tempo” e me esforcei para ilustrá-lo. 
        Disse então o orientador voltado para o atento grupo de aprendiz: 
       – Ser autor ou escritor é isso: transformar o que for em texto. Parabéns, escritora! 
       Os colegas a recompensaram com uma salva de palmas.


ILUSÃO OU FATO?