ASRAF LORENE - A MUSA

          O cineasta, aspirante Denil, estava maravilhado, pois tinha encontrado a estrela perfeita para a sua produção cinematográfica: “A Musa”.

           – Divina! – disse ele.

          Para provar o desprendimento da graciosa criatura, Japona, o maior criador de fantoches,  havia colocado uma valsa para tocar e ela demonstrou uma habilidade invejável. Colocado um rock, dera show e, ao ter colocado uma música havaiana, mostrou-se simplesmente fenomenal. 

          Encerrado o espetáculo, retirou o chip das costas da exuberante boneca e disse que eram infalíveis. Bastaria ser programados.

          – Mas estou receoso. – confessou Denil.

          – Receoso de quê?! – perguntou o diretor de produção, responsável pela indicação de Japona.

          – Com o assédio. Como iremos nos livrar?

          Japona sugeriu que a apresentassem revelando, oportunamente, a verdadeira identidade: ser a criatura uma boneca.

          – Seria vergonhoso.

          Japona disse que faria melhor. Colocaria sensores e, uma vez assediada, garantiria acenos, beijinhos, gestos sensuais e respostas para perguntas habituais.

          – Ok, Japona. Mas existe programação para respostas a inesperadas perguntas?

          Japona respondeu que não. O diretor de produção lembrou-se do nome Lanca.

          – Lanca… – Denil.

          – É de extrema confiança. A ele competiria a segurança da jovem.

          – …?

          – Nós a cercaremos de mistério, meu bom cineasta: tímida, recatada e retraída. Borra-se toda de vergonha da imprensa e do público. – incentivou o diretor de produção.

          – E a sua nacionalidade? De onde veio? Como a descobrimos?

          – Tudo será mistério. Terá um camarim exclusivo. O seu trajeto será camarim estúdio, estúdio camarim. Japona nos garantira isso.

          Denil meditou e meditou…

          – Como se chamaria? – perguntou.

          – Asraf. (Farsa) – pilheriou Japona.

          – Asraf de quê? – inquiriu Denil despercebido.

          – Asraf Lorene. – complementou o diretor de produção, também despercebido.

          – E como seria depois das filmagens?

          O diretor disse que tudo deveria acontecer por etapa. Haveria tempo para pensarem como seria a inevitável despedida de Asraf Lorene. Denil meditou e o escutou. Dias depois, Asraf Lorene, devidamente programada, estava pronta para iniciar as filmagens.

          As filmagens foram então iniciadas. A bela Asraf Lorene, meiga e carinhosa, tinha voz aveluda e sorriso cativante. E, mesmo humildemente trajada, como assim exigia boa parte daquela produção, a sua extrema beleza e interpretação perfeita já causavam isoladas conversas, ciumentas entre os colegas atores. Tudo transcorria bem. Asraf Lorene sendo filmada, longe de ser reconhecida como uma boneca, seguia triunfante, provocando certa preocupação a Denil, no vigésimo dia de filmagem.

          – Não estou gostando nada dos reiterados olhares do cafajeste Neik Nord. – o ator que contracenaria com Lorene.

          O diretor de produção disse que recomendaria a Lanca que ficasse atento. Assim o fazendo, a fotografou. Escreveu pequena história sobre a ‘vida’ dela e, junto com a foto, enviou para uma rede social. Não demorou muito para o ‘nascimento de uma estrela’. Portando cartazes do ‘novo ídolo’, uma multidão passou a marcar constante presença à porta do estúdio. E, nas redes sociais, numa mistura de imaginável vida de Asraf Lorene como o enredo do filme, histórias espetaculares escritas anonimamente pelo diretor de produção eram a sensação do momento. Tudo se confundia ainda mais. Foram quarenta e cinco dias de gravações. No entanto, era passado, pois as gravações haviam chegado ao fim. Asraf Lorene, para todos os efeitos, tinha adquirido rumo ignorado.

          O quarto do hotel estava bagunçado.

          – Que confusão é essa? – quis saber Denil.

          – Que confusão, meu bom cineasta?

          – Musa, ídolo, lenda. Celebridade…

          – Títulos da nossa ilustre estrela!

          No entanto, o fantoche, Asraf Lorene, ali se encontrava, num canto da suíte. Com se arremessada por uma malcriada criança.

          – Desaparecerá para sempre!  – entoou Denil. 

          – Que assim seja! – replicou o diretor.

          Assim sendo, dias depois a imprensa anunciava a tragédia. Asraf Lorene teria sido devorada por tubarões na Baía Quin. O iate “Moisés”, do cineasta estreante Denil, havia se encontrado à deriva. Estava profundamente abatido com a lamentável notícia. Lore, lhe havia garantido possuir autorização portuária para navegar e ser conhecedora das adversidades da baía. Estava feliz. Estava decidida, naquela maravilhosa manhã, a banhar-se nas águas azuis da baía, relaxar e pegar um sol.

          A notícia invadia mundo afora. Japona, Denil e o diretor de produção acompanhavam as cenas pela TV. Adultos desfeitos expressam profundo pesar. Adolescentes reunidos, portando fotos da musa, lamentavam inconformadamente a perda. Crianças amparadas pelos pais copiosamente choravam.

          – …! – Japona, com “bico nos lábios”.

          – A previsão é a de que teremos bilheteria esgotada por muitos e muitos meses! – disse o diretor de produção.

          – Assistiram na verdade a “farsA!” – replicou o cineasta Denil ao ter despertado para a diabrura do tutor de bonecos.




ILUSÃO OU FATO?