RELATO DE EXPERIÊNCIA VIVIDA

   Sullivan, 42 anos, retribui à saudação e diz que ali não estaria caso a senhora Nicole ainda residisse no país. Merecidamente havia encontrado a alma gêmea e voado para outros ares. Porque assim dissera. Porque o relato que ouviriam seria em primeira mão, caso chegasse ao conhecimento dos ordinários. Contrariados com o fracasso da trama a perseguiriam. Pois fora a senhora Nicole a ‘trituradora de pernas’.


           – Confecciono molde industrial, trabalho que realizo na oficina instalada aos fundos da minha arborizada residência. – conta ele Nicole havia adentrado a oficina e me confidenciado que, no dia anterior, em sua folga, ali estivera para apanhar a lista de compras do mercado de que havia se esquecido. Ao se aproximar da copa, escutou cochichos, reteve os passos e apurou a audição. A senhora Adenila, a minha companheira. A irmã Arete e o namorado Delxon recapitulavam um plano para me assassinar. Seria convidado para conhecer o Castelo dos Âncoras, e lá dariam cabo de minha vida. Disse-me que seria ingrata e até cúmplice caso não me comunicasse. Pediu-me para que resguardasse o seu nome e que fosse sábio. As grades seriam para os estúpidos. Não combinavam comigo. Declinou a cabeça e se retirou tão desajeitada o quanto havia adentrado… E eu ali permaneci com a terra fugindo dos pés… Acreditava na confidente. Carregava consigo cópias das chaves da casa. Não havia motivo para duvidar. Pensativo, aguardaria Adenila chegar, trabalhava no turno da tarde. Aguardaria a rotina das 17:00 horas se repetir. Repetiu-se. Estacionou o carro dentro da propriedade e, por entre as árvores, caminhou. Adentrou a oficina, colocou a bolsa sobre a bancada, beijou-me e, curiosamente, disse-me que o meu rosto de galã permanecia o mesmo, mas o espírito agonizava... Não me recordo de ter ensaiado alguma feição ou, involuntariamente, ter esboçado. Mantinha-me sereno. Repliquei que o responsável pelo meu abatimento era a agonia de um profissional contrariado. O molde da chupeta de mamadeira, tirava-me do sério. Disse-lhe que, para aliviar a tensão, havia lido uma matéria no celular. Nomes importantes estavam doando parte da fortuna para instituição de caridade e eu pensava em imitá-los. Pois, como sabia, os meus pais haviam passado para o meu nome, registrado em cartório, o valorizado terreno localizado no bairro de Aços. Se não tiveram coragem de encarar o projeto da construção de um condomínio, teria muito menos. Portanto, doaria para uma instituição de caridade. Ao ouvir, meditou e replicou que havia entrado na minha vida recentemente que eu decidisse o que fazer com o terreno. Apressando a saída, disse-lhe algo balançou a cabeça e se foi. Adiante, ao adentrar a casa, a avistei manuseando o celular... Imaginava que o convite para conhecer o Castelo dos Âncoras logo viesse. Mas custava. Passei a dormir temeroso. Cheguei inclusive a sonhar como morreria: Ultrapassaria a faixa de segurança e despencaria da torre. A mídia, vez por outra, relata a imprudência dos visitantes do Castelo dos Âncoras. O falso documento de doação do terreno, redigido por um amigo, encontrava-se pronto e o convite nada de acontecer. Mas o convite me chegara transmitido pela própria Adenila. A irmã e o namorado nos visitariam à noite para convidarmos a conhecer o mencionado castelo. Seria um passeio divertido. Sairíamos no sábado pela manhã e retornaríamos no final da tarde do domingo. Garantiu. Então, à noite, nos acomodamos na sala de estar. Trocando preliminares conversas, falei sobre o meu contentamento de imitar os milionários. Como podiam conferir na cópia do documento, cujo original encontrava-se em poder do advogado, constava a minha assinatura de autorização de doação do terreno do bairro de Aços para uma instituição de caridade. Ao dizer, fora igual ao esvaziamento de uma bola envolvida numa aquecida partida de futebol. Olharam-se. Descansei o suposto documento ao lado e introduzi curiosidades sobre o convite que nos fariam. No entanto, o Delxon, que nunca fora contabilista, desculpou-se e disse que, na verdade, nos visitava para postergarmos a data do passeio porque um parente havia adoecido. Desejei que se restabelecesse e lamentei pela ruptura da proposta, pois desejava conhecer o castelo. Momentos depois, a porta se fechou em suas costas, silenciosamente... Contei o sucedido a Nicole. Deixei que os dias se passassem. Numa manhã de quinta-feira, Nicole, ao chegar para cumprir mais um dia de trabalho, encontrou-me na copa. Perguntou-me por Adenila, pois não tinha visto o seu automóvel na propriedade. Respondi que havia ido embora nas primeiras horas da manhã. Fora simples o ‘despejo’. Acontecera ali mesmo na copa. Na noite anterior, depois de ter solicitado dois hambúrgueres e comido o meu sanduíche, pedi para que ela observasse a trajetória da embalagem: a embolei e a atirei no sexto do lixo. Limpando as mãos, disse-lhe que a embalagem a representava. Havia escutado, ali mesmo na copa, a trama para me assassinarem no Castelo dos Âncoras. Lamentei sobre o nosso relacionamento. Havia acabado. Disse-lhe que não fora eu o canalha, e que recolhesse os trapos e vazasse. Nicole, sempre com o semblante sereno, olhando-me, disse-lhe que procedi conforme me instruiu. As grades eram para os estúpidos. Não combinaria com elas.

ILUSÃO OU FATO?

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