REENCARNAÇÃO

       Podia-se ouvir a conversa mantida na varanda de uma residência da mencionada cidade. Tomsul ainda preservava aspecto de arraial. Na arborizada Praça Anzol, havia balaustrada, cujo mar espalhava-se adiante.


      – Segundo eu li, Alzira, a ideia da reencarnação é mais ou menos assim: condução da matéria que o espírito encarnou à perfeição para atingir o seu aprimoramento espiritual. No entanto, no meu humilde *abesullar, às vezes, resulta em tragédia: reproduz traumaticamente experiência vivida.      – Por que diz isso, criatura?      – Refletindo sobre o assassinato do casal de desconhecidos ocorrido recentemente no restaurante Estrela do Mar.      – Repercute.      – Ilustrarei a história dos apaixonados Aldo e Jandira... Junto ao muro, apreciando o mar, escutou suave voz masculina dizer que ela estava atrasada. Com as vistas unidas, olhou para o desconhecido e perguntou se o conhecia. Sua resposta foi uma pergunta: recordava do navio encalhado? Ela olhou para a embarcação abandonada, e assentiu com a cabeça. Então, não eram desconhecidos. Ouviu. Voltou a olhar para o homem e, pensativa, dirigiu-se a ele e sentou-se a seu lado. Ele confessou que também acreditava que tinha ido ali conduzido por uma força. Seria o segredo deles? “… No navio encalhado…” Balbuciou ela recordando. Seria fácil saber. Um dos pescadores os conduziria até a embarcação. Ao sabor do barco deslizando sobre as águas, escutou do companheiro recordações. Chegaram ao navio. O segredo havia sido depositado no camarote do comandante. O companheiro enfiou a mão num compartimento e retirou um frasco onde havia um par de alianças. As alianças colocadas nos dedos trocaram carícias e choraram. Depois de muita lamentação, resolveram retornar. De volta à praça, saíram caminhando, sugerindo um deles visitar a capela São Roque. Porque é nela que se conheceram. Trauma extravasado, decidiram almoçar no restaurante Estrela do Mar…      – Contam que, na adolescência, esconderam um par de alianças no navio encalhado.       – Aldo e Jandira não mereciam casar com as desgraças que conheceram na fase adulta e casaram. No entanto, estavam livres quando a tragédia aconteceu. Estando ambos à mesa do restaurante Estrela do Mar, foram mortos. Os mandantes dos assassinatos foram a ex-esposa do Aldo e o ex-marido da Jandira. Fingiram que haviam os perdoado da traição. Casados, continuavam se encontrando, como todos sabem. No dia em que estiveram na capela, fora para reviverem como se conheceram na adolescência. Depois, foram almoçar no citado restaurante para comemorarem a liberdade. À mesa. Fora o estabelecimento invadido por um pistoleiro a mando da ex-esposa do Aldo e do ex-marido da Jandira que os assassinou... Soube que o automóvel do casal de desconhecidos assassinados na semana passada, no restaurante Estrela do Mar, adentrou a Praça Anzol, por volta das 10:30 horas; estacionou sob uma das árvores e ali permanecera por bom tempo. O casal, tempos depois, se dirigiu para a mencionada Capela São Roque, permanecera por alguns minutos e seguiu para o restaurante. Nesse momento, um carro parou próximo. Acredita-se que o casal estava sendo observado. Vandré, experiente e antigo garçom, contou-me que aparentava ser amantes. Ela estava inquieta. Dado prosseguimento no atendimento à jovem, não tirava as vistas da mesa em que Aldo e Jandira foram assassinados. Por cortesia, disse que havia mesas livres, melhores posicionadas. Retrucaram que aquela mesa estava ótima. Sentaram-se e, momentos depois, se iniciou a confusão: alguém, empunhando uma arma, tentava adentrar o restaurante. Ao se erguerem, foram alvejados e mortos, supostamente pelo marido dela, ainda não se sabe. Pergunto: o que o casal de forasteiros fora fazer na desconhecida Capela São Roque? Qual teria sido o motivo da curiosidade sobre a mesa-palco de um remoto crime pouco repercutido?      – Insinua que os espíritos de Aldo e de Jandira se encarnavam no casal de desconhecidos e os arrastaram para cá?      – Assim creio. No início de nossa prosa, disse que, segundo eu li, a ideia da reencarnação era mais ou menos assim: condução da matéria que o espírito encarnou à perfeição para atingir o aprimoramento espiritual. No entanto, no meu humilde *abesullar, o tiro, às vezes, sai pela culatra; resulta em tragédia. Reproduz traumaticamente experiência vivida. Coisa que não deveria acontecer porque a ideia é nítida: o espírito encarna com o propósito de aperfeiçoar a matéria para atingir o aprimoramento espiritual.      –…!
*Abesullar: espiar, examinar.

ILUSÃO OU FATO?