O ALMEJADO ENDEREÇO: BIRUTIFUDE
A cidade era imensa. Dizia-se até que podia ser chamada Cidade Mundo. Jéferson, 53 anos, caminhava por aquelas ruas no encalço de um endereço que lhe fora confiado por um homem moribundo, vítima de dezenas de perfurações à bala. Antes de cerrar os olhos para sempre, havia lhe dito que, naquele endereço, era possível encontrar a paz.
No encalço do local que lhe fora confiado, Jéferson caminhava. Ao avistar uma senhora varrendo o passeio de um pequeno ponto comercial, aproximou-se dela e perguntou onde ficava localizado Birutifude.
No encalço do local que lhe fora confiado, Jéferson caminhava. Ao avistar uma senhora varrendo o passeio de um pequeno ponto comercial, aproximou-se dela e perguntou onde ficava localizado Birutifude.
– Como?! – indagou a senhora espantada com o nome, interrompendo o afazer.
– Birutifude. – repetiu Jéferson.
– …?!
Jéferson lhe entregou o papel no qual constava o mencionado endereço. A senhora, após ler o complicado nome, disse que não sabia precisar onde ficava localizado.
– O que é mesmo? – inquiriu ela.
– Um lugar onde posso encontrar a paz.
– Caso estivesse procurando emprego, teria encontrado. – disse a senhora.
– Oferta-me um emprego?
– Careço de um auxiliar.
As reservas de Jéferson estavam baixas, aceitando, pois, a proposta. A senhora concluiu o afazer e o convidou a acompanhá-la. Adentraram por fim a loja de sapatos.
– Vender não é bicho de sete cabeças. Basta ter paciência e ser franco para evitar complicações. Encerro o expediente às 18:00 horas. – teceu ela.
Jéferson providenciou as exigências pré-contratação e começou a trabalhar. Sessenta dias se passaram sem ter havido uma única queixa sequer contra o contratado. Dias depois, no entanto, numa certa manhã, Jéferson assim disse para a mulher:
– Observo, senhora, que os sapatos que a loja se dedica na venda são de excelente qualidade e têm boa aceitação. Por outro lado, também observei que, em razão da qualidade dos calçados, o faturamento da loja poderia ser maior.
– Sugere que eu aumente os preços? – perguntou ela
– …
– Não seria uma boa ideia, senhor. Existe concorrente. – explicou ela.
– Os sapatos passariam a ser de grife. – disse Jéferson
– Seriam os mesmos sapatos, porém carimbados com o nome de uma grife?
– A qualidade não decepcionaria, o comprador deixaria a loja com sapatos de grife nos pés.
– Pagando um pouco mais.
– Bem mais.
A senhora meditou e prometeu analisar a ideia. Na manhã do dia seguinte, ela recorrendo à mesma praticidade que usou no momento de convidá-lo para trabalhar, assim disse:
– Senhor Jéferson, se teve a ideia ‘malandra’ de etiquetar os sapatos como se fossem de grife, qual seria amanhã a ideia ‘macabra’ que articularia contra a minha pessoa?
– Por favor, senhora...
– É fato, senhor Jéferson. Agradeço-lhe e sugiro que volte a procurar Birutifude.
Jéferson recebeu o que tinha direito e voltou a procurar Birutifude, seguindo as informações que ia recebendo sobre a localização: ora ficava à esquerda, ora à direita. Quem sabe até a quilômetros distantes.
Comendo alguma coisa que havia adquirido numa loja de salgados, adentrou um condomínio de casas, caminhou pelas ruas desertas e, ao avistar um jardineiro, dirigiu-se a ele.
– O que deseja, homem? – perguntou o amante da natureza.
Jéferson lhe entregou o papel que continha o difícil endereço. O profissional, ao ler, disse que parecia nome de inseticida.
– É um lugar onde é possível encontrar a paz. – conversou Jéferson.
– Será que existe?
– Disseram-me que existe.
Por curiosidade, Jéferson quis saber se aquela rua era pública.
– Por que pergunta?
– Diferente das demais...
– Tipos esquisitos cruzando lado a outro?
– Perfeitamente.
– Deslocam-se do trabalho para casa e da casa para o trabalho.
– Caso residisse aqui, interditaria o acesso.
O jardineiro, que não esperava por aquele posicionamento, riu.
– Faria isso?
– Faria.
O amante da natureza, balançando a cabeça, enfatizou a conversa dizendo que não sabia informar o endereço o qual ele procurava.
Horas depois de longa caminhada, Jéferson avistou um senhor de cabelos grisalhos acomodado num banco de uma praça.
– Pois não? – inquiriu o senhor ao vê-lo se aproximar.
Jéferson lhe entregou o papel onde nele constava o nome do almejado endereço.
– Birutifude… – pronunciou o senhor demonstrando intimidade com o nome.
– Conhece?
– Existiria. – respondeu ele.
– Não existe?
– Existiria… Quem lhe deu isso?
Jéferson contou que fora um homem nos últimos momentos de vida. Havia recebido uma saraivada de balas.
– Morreu, portanto, de morte não natural.
– Perfeitamente.
– O que diziam sobre ele?
– Que era um bom homem.
– Era um bom homem. Crivado de balas e, antes de morrer, lhe entregara tal endereço, dizendo que nele era possível encontrar a paz.
– Entregaria a qualquer um.
– Birutifude significa momento atual: presente. Estou convencido de que ele estava certo quando disse que era possível encontrar a paz. Encontro-me na condicional. Caso tipos desprezíveis iguais a mim não existissem, seria possível haver.
– Praticou horrores? – indagou Jéferson.
– Incivilidades...
– ...
– Se não for coerente, incoerente é. É o lado didático da desavença. Um raciocínio quântico, digamos assim.
– Birutifude nao existe.
– Existiria.
ILUSÃO OU FATO?