O BRINCO
A senhora Zurita, visivelmente angustiada, relatava ao investigador particular que, como ele podia observar, o dormitório passava por reforma. Foi o pedreiro que encontrou o brinco ao retirar o assoalho. O esposo e ela acreditavam que a joia pertencia à intrusa que ali estivera
– Será que se desprendera de sua orelha, entremeara por uma das frestas do assoalho e ali se acomodara?
– Assim acreditamos. – afirmou ela.
– Assim acreditamos. – afirmou ela.
– E descartam pertencer a familiares?
– … Sim…
– A residência foi construída por vocês?
– Foi.
– Durante a construção houve trabalhadoras?
– Houve, mas nada pesou contra elas.
O investigador abandonou o local, deixando para trás palavras de esperança. A senhora Zurita, abraçada pelo esposo, desmanchou-se em prantos. Feliz, estendia fraldas no varal e, ao retornar ao dormitório, percebera que o seu bebê havia desaparecido do berço. O investigador, junto à equipe de trabalho…
– São pessoas com posses. – disse ele – Residem numa quadra de magníficas residências, onde não há muros nem cercas. A senhora Zurita contava, na época, com vinte e dois anos de idade, e o esposo, com vinte e três. Os dois se amavam e eram felizes. O furto do bebê repercutira, nacionalmente, porém, o esforço concentrado não lograra êxito. Se vivo, estará com dezessete anos.
– Por onde iniciaremos as investigações? – quis saber um dos investigadores.
– Pela vizinhança? Foi exatamente o que os investigadores da polícia fizeram à época: investigaram vizinhos, trabalhadores e empregados, porém, nada rendera.
– … Não se trata de uma peça comum. – observou outro investigador, com o mencionado brinco em suas mãos.
– Nostredame, confeccionado em ouro e brilhantes. – replicou o investigador que coordenava os trabalhos.
Questionou a investigadora Tali:
– As investigações, à época, buscaram informações junto aos moradores que haviam se mudado antes de o furto acontecer?
O investigador que coordenava os trabalhos, respondeu:
– Bem pensado, Tali. Bem pensado. Vamos nos informar a respeito.
Então, por aquelas vias, os trabalhos foram iniciados. Uma semana depois, as suspeitas recaíram sobre uma mulher de nacionalidade francesa.
– Endereço confirmado, Talita?
– Confirmado, chefe.
Dois dias depois, ambos voavam em direção à cidade onde a francesa residia, situada a oitocentos quilômetros dali. Uma vistosa mansão. A proprietária, considerada suspeita, era uma senhora de sessenta e quatro anos. Fitava o brinco e um pedido para que o jovem Pierre fosse submetido a exame de DNA.
– Estava ciente de que um dia isso aconteceria. – disse ela – Dei sorte em muitas coisas na vida, porém, em relação a relacionamentos amorosos, não fui feliz. Desejei o filho daquele casal, assim que a barriga da jovem Zurita mostrou-se saliente.
Diante da situação, os mencionados investigadores se entreolharam, prestando atenção à fala da mulher.
– O que agora acontecerá? – inquiriu a senhora.
Tali lhe disse que, oficialmente, não eram prepostos da justiça.
– Criei-o com o maior amor. Pierre é um belo e amoroso jovem. Cursa a faculdade e namora uma encantadora garota. Ele a namorada completam minha vida.
– …Pierre…
– Sim, Pierre.
Chegando da rua, fazendo-se presente na luxuosa sala de estar, saudou os visitantes, beijou a senhora, chamando-a carinhosamente de tia. Em seguida indagou se os visitantes ali presentes eram policiais.
– Por qual razão seriam, Pierre? – perguntou ela.
Pierre sentou-se numa das poltronas e começou a chorar, dizendo, em dado momento, que sempre desconfiara de alguma coisa, porém, o encaminhamento dela à prisão perpetua seria o seu fim.
A sua ‘tia’, por sua vez desfeita, mergulhou em pensamentos. O investigador recorreu ao celular, implorando Pierre que não chamasse a polícia.
– Não chamará, senhor Pierre. – garantiu Tali.
O investigador, afastando-se, telefonou para a senhora Zurita, informando-lhe o resultado dos trabalhos realizados. Passado o aparelho pra o seu marido, o investigador lhe pediu que não envolvesse a policia até segunda ordem.
– E porque não, senhor?
– Trata-se de uma situação extremamente delicada.
– Como assim?
– Razões emotivas, senhor.
– Mais do que a nossa? – questionou o vitimado.
O investigador correu os dedos por entre os cabelos, meditou e disse:
– Sugiro ponderação dos senhores. Apego é amor, e amor não se desfaz de um dia para o outro. Amor é o não consentimento de ver o sofrimento da pessoa que ama.
– Amor é o não consentimento do sofrimento alheio, senhor investigador.
– Goza de razão, senhor. De extrema razão. No entanto, acho que ponderação será o caminho para se conquistar a simpatia do rapaz e mantê-lo feliz.
O psicólogo, que acompanhava os pais de Pierre, os havia preparado. Encontravam-se todos no interior da mencionada mansão e, sempre que podia, o casal, vitima do furto, fuzilava a ladra com severos olhares. Pierre, por sua vez, com tiques nervosos, cabisbaixo, sentava ao lado da namorada, que o tranquilizava.
– Estejam à vontade. – disse o psicólogo, assim que reunião foi estabelecida.
– Pierre não é o seu verdadeiro nome. – disse a senhora Zurita, dirigindo-se ao filho.
– Por favor, senhora! – solicitou o psicólogo.
– Perdoe-me.
– Continue, senhora.
– Com se sentirá vendo a sua ‘tia’ na prisão perpétua?
– Um bagaço. – respondeu Pierre, erguendo as vistas, encarando-a.
– E como analisa o nosso passado? O do seu pai e o meu, ao longo desses últimos dezessete anos?
– Reconhecidamente, um bagaço, também, senhora.
A senhora Zurita, após respirar profundamente, disse:
– Manteremos os nossos lábios selados por você. Que fique bem claro.
– Agradeço-lhes, senhora. – disse Pierre.
O psicólogo, manifestando-se, disse-lhes que, tão logo a poeira se assentasse, haveria um bom relacionamento entre eles. Os pais e o filho. Obviamente.
“Amor é o não consentimento do sofrimento alheio.”👍
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